Não acredito muito que alguém se preocupe com o texto da contracapa de um bom LP. Acho mesmo que, em se tratando de Moacyr Silva, o público adquire o disco sem maiores hesitações, assim como quem compra um uísque sem se importar com o invólucro, porque o bom está dentro da garrafa. Já assisti gente pedindo, em balcão de loja de discos, LP desse admirável saxofonista, sem ver até mesmo o repertório na gravação. O pretexto do comprador, de uma maneira geral, era este: — "É LP do Moaça ? Então me dá porque é bom!" O sôpro de Moacyr Silva é dessas coisas que tem marca registrada. É um logotipo musical, marcante, inconfundível e que vale como atestado de excelência para qualquer disco. Não obstante êsse prestígio, êle não se descuida um milímetro da dimensão qualitativa dos seus discos. Escolhe as músicas à maneira de gourmet exigente, que procura sofregamente condimentos de regiões mais distantes do mundo, a fim de incluí-los num "prato" digno do paladar de deuses. Moacyr Silva seleciona a dúzia de músicas de seus discos ascultando os amigos e o gôsto do público. Emociona-se com as melodias e se entende que as músicas também sensibilizarão os outros, aí dá-lhes um "aprovo" consagrador. Neste LP, por exemplo, ele reuniu o samba de bossa-eterna, de bossa-nova, a canção que é tôda trepidante como a própria época em que vivemos — e também a música de ternura, que envolve a alma da gente, diluindo agruras e trazendo novas esperanças. Querem exemplos? Ouçam êste "Diz Que Fui Por Aí", samba que é a propria canção do homem livre e feliz. Depois, o "Bossa na Praia", com o balanço que é o próprio sêlo da música brasileira moderna. E tem o "Fly Me To The Moon", que é mostra exuberante do que se imaginou para tornar mais vibrante o baile de brotos — e adultos, também! No fim do LP, Moacyr Silva aparece com uma nova pequena obra-prima de Billy Blanco, tipo da coisa admirável até no título, vejam; "Lado Bonito de um Mal". E que dizer, então, do toque novo e terno que ele dá ao penetrante "Days Of Wine And Roses"? E, vejam só, esta aqui quem dizia que não acreditava ser necessário dizer qualquer coisa em capa de LP!... Na verdade, e para encerrar o assunto, disco de Moacyr Silva vale sempre por dois: vale para se ouvir muitas vêzes. E se dançar ainda mais. É dêsses LPs que a agulha da vitrola da gente acaba conhecendo todos os "caminhos" dos sulcos. De tanto percorrê-los...
BORELLI FILHO
(Chefe da redação da
" Revista do Radio" e programador
da Radio Roquete Pinto)
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